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Nascido em 1965, o paulistano Ricardo Rojas é designer de formação, mas sempre considerou a Fotografia como uma de suas maiores paixões, assim como os esportes. Praticante de remo desde a adolescência, iniciou seu trabalho fotográfico bem cedo, aos 18 anos, clicando surfistas em suas evoluções nas ondas, nas praias do litoral paulista.

 

Realizou sua primeira exposição em 1988. Intitulada "Momento do Esporte”, a mostra foi realizada a convite do Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo. Foi durante essa exposição que uma das empresas patrocinadoras, a Editora Abril, convidou o jovem Rojas, então com 23 anos de idade, a integrar o quadro de assistentes do Estúdio Abril. Lá  aprendeu muitas técnicas e macetes da profissão e, em suas palavras, essa teria sido sua "primeira grande escola de fotografia".

 

No inicio de 1990, Rojas parte para Londres em busca de novos modelos de fotografia. Trabalha como assistente no PackShot Company e retorna ao Brasil em 1991. É convidado a tornar-se sócio-editor de uma revista especializada em jetski, a primeira sobre o tema lançada no Brasil, onde permanece por três anos. Durante esse período, teve a oportunidade de realizar diversos trabalhos de Esportes Radicais e Aventura para o jornal Folha de SP e outras revistas segmentadas, o que logo lhe rendeu o convite para compor a equipe de um dos mais renomados estúdios fotográficos na área da Publicidade: o da agência DPZ.

 

Em 1995, deixa a DPZ e monta seu próprio estúdio. Em 1998, produz sua segunda exposição, intitulada “Piercing”, uma coletiva realizada no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP). Em 2003, lança seu terceiro trabalho autoral, “Essência Feminina”, considerado o seu projeto de maior repercussão. Nele, o fotógrafo enfoca a feminilidade dos travestis, por meio da beleza plástica de seus corpos e atitudes.

 

Em 2005, após ganhar diversos prêmios no segmento da fotografia publicitária, Rojas se associa ao estúdio fotográfico da agência DM9DDB, onde permanece por mais de cinco anos. Em 2007, realiza a mostra “Família Real, Olhar Virtual”, um trabalho de olhar compartilhado com suas filhas (Natasha, 11 anos, e Nina, de apenas 4 anos de idade). Eles utilizaram uma câmera Lomo, que tira fotos em seqüência e quase não possui recursos, para revelar os diferentes olhares sobre um mesmo tema. A mostra obteve grande sucesso de público e crítica, permanecendo em exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo por mais de seis meses.  

Porém, como sempre inquieto, como ele mesmo se define, não satisfeito com seu trabalho comercial e com a pretensão de poder contribuir mais com a sociedade, decide fundar em 2013, ao lado do parceiro Cadu Lemos, a  mObgraphia Cultura Visual, que considera "o maior movimento de fotografia em plataformas móveis da  América Latina". Em 2014, a dupla promoveu uma exposição coletiva de imagens feitas com celular no MIS-SP e lançou a primeira edição do Festival Latino Americano de Mobgrafias (FLAMOB) e também o prêmio mObgraphia, com exposições, painéis, workshops e debates sobre essa nova forma de geração de conteúdo imagético. 

 

Em 2016, Rojas edita uma mostra de fotografias feitas com o celular durante suas andanças pela cidade de São Paulo. Intitulada "Série Metrô SP", a mostra reuniu imagens do movimento de pessoas e trens no metrô. O foco do trabalho foi as janelas dos trens que chegavam ou partiam das estações. O movimento, as cores, as formas, muitas delas distorcidas pelos reflexos no vidro,  o surpreenderam e ele encontrou uma maneira de capturá-las que só a mobgrafia permitiria. Com muita discrição e praticamente "invisível" como fotógrafo, sem a presença de equipamentos grandes e pesados, tornando-se mais um no meio de tantas outras pessoas, Rojas realizou um registro surpreendente de personagens, momentos e cenas do cotidiano do mais importante meio de transporte coletivo paulistano. As imagens permaneceram em exposição na filial paulistana da UMA, na Vila Madalena. A UMA é uma marca brasileira de moda concebida pelo casal Raquel e Roberto Davidowicz.

Em 2017, dentro das atividades da mObgraphia Cultura Visual, realiza a 4ª edição do FLAMOB, ainda no MIS-SP, desta vez ocupando um andar inteiro do Museu. "Com isso, a mObgraphia cresce e se torna, além do principal movimento cultural de fotografias de celular, uma rede de geração de conteúdo, trabalhando para algumas marcas como: Motos Triunph; Lexus; Mini; Itaú; entre outras", afirma.

 

Um dos projetos da mObgraphia de maior repercussão, na sua opinião, é o “Superação 2016”. Uma ação liderada por Rojas, criada e executada pelo movimento, que trabalha o conceito de acesso democrático e inclusão na Fotografia. A iniciativa possibilitou levar ao maior evento de paradesporto do mundo, os Jogos Paralímpicos, o único fotógrafo de baixa visão do mundo para cobrir os eventos esportivos, o piauiense João Maia.

 

Atualmente, Ricardo Rojas se dedica à fotografia autoral, à produção cultural como um dos administradores da mObgraphia Cultura Visual, e aos trabalho de inclusão através fotografia produzida com celulares.

TUmob: Você trabalhou por muitos anos utilizando os recursos de máquinas analógicas e digitais. Quando você começou a fotografar com o celular? 

Ricardo Rojas: Não sei exatamente quando comecei a fotografar com celular, mas o que eu me lembro é que, por volta de 2012, percebi que eu estava fazendo algumas fotos com meu celular que até me agradavam. Foi nesse momento que me dei conta que fotografar com celular me devolvia a autonomia e autoria (controle) do meu trabalho, o que a fotografia digital comercial/profissional havia me tirado.

 

TUmob: Como é a sua relação com o seu celular? Você costuma utilizá-lo para outras coisas, além da Fotografia?

Ricardo Rojas: (Risos). Essa é uma boa pergunta. Hoje eu uso meu celular para fotografar, me comunicar com as pessoas via aplicativos, acessar internet e redes sociais e o que eu menos faço é falar ao telefone. Raramente eu faço uma ligação e/ou recebo.

 

TUmob: Você acredita que essa relação alterou de alguma maneira sua percepção como fotógrafo?

Ricardo Rojas: Se alterou minha percepção como fotógrafo? Não. O que eu acho que ocorreu foi uma nova forma de fotografar que não fazia parte do meu hábito. Perceber momentos do dia a dia, buscar situações inusitadas ou curiosas , perceber o céu, o entardecer, o trânsito...enfim, comecei a estar mais atento à vida ao meu redor.

 

TUmob : Como foi, para você, o processo de mudança da fotografia analógica para a digital e desta para a tecnologia mobile? 

 

Ricardo Rojas: Bom, a fotografia analógica eu adoro e até hoje ainda fotografo um pouco usando filme. A transição para a fotografia digital foi traumática , detestei, não foi fácil de aceitar, mas tive que me render e aí foi realmente, falando do lado profissional, um desastre a ponto de não querer mais trabalhar com fotografia. Não fazia mais sentido, no meu caso, ter que executar um layout de uma campanha publicitária que já foi construído por uma pessoa que não conhece nada de fotografia, na sua grande maioria, e aí você se torna apenas um mero executor. Ao passo que a transição do digital para o celular mudou tudo, eu volto a ser o gerador do meu próprio conteúdo , não tem ninguém que diz o que e como eu devo fazer a minha mobgrafia. E isso está se refletindo nos poucos trabalhos comerciais realmente verdadeiros e atuais...

 

TUmob: A instantaneidade, o imediatismo possibilitado pela fotografia de celular trouxe algo novo para você, para o seu processo criativo?

Ricardo Rojas: O que eu acho é que toda a forma de fazer comunicação está mudando e, com ela, a fotografia também. Mas não acho que foi só o  imediatismo que mudou alguma coisa no meu processo e sim a nova forma de fotografar.

 

TUmob: Como surgiu a ideia de criar a mObgraphia?

 

Ricardo Rojas: Foi em uma conversa informal com o coach (treinador) Cadu Lemos, profissional da área do Marketing, que eu conheço há muitos anos. Após discutirmos algumas ideias, pensamos em oferecer workshops para quem quisesse conhecer os aplicativos de fotografia para celular. A partir daí, observando o que estava acontecendo pelo mundo afora decidimos fazer , aqui no Brasil o nosso próprio prêmio/festival, e lá fomos nós...

 

TUmob: Qual a sua análise sobre o trabalho que a mObgraphia vem realizando?

Ricardo Rojas: Eu vejo que a mObgraphia cultura visual incentivou outras pessoas a exercitarem o olhar e participarem mais ativamente do mundo da fotografia. Na verdade, essa é a intenção da mObgraphia: ser democrática e inclusiva, levando para todas as pessoas a possibilidade de praticar e desenvolver o olhar e a sensibilidade que todos nós temos. Papel que a fotografia tradicional, clássica, não conseguiu assumir.

 

TUmob: O que você pensa sobre o crescimento da fotografia mobile no Brasil e no Mundo e do surgimento de novos grupos e coletivos focados nessa atividade?

Ricardo Rojas: Isso era inevitável, afinal essa é uma ferramenta que está nas mãos de todos, o que provoca a inquietude necessária e dá poder às pessoas participarem desse universo da fotografia/mobgrafia. E sobre os grupos, coletivos...o mundo hoje é dos coletivos, é um mundo colaborativo.

 

TUmob: Você acredita na possibilidade de profissionalização da fotografia feita com dispositivos móveis?.

Ricardo Rojas: Sim, claro ! Como eu disse, vivemos uma transição e essa nova forma de fazer comunicação está aí e não tem volta. Uma coisa eu posso afirmar. Fotografar com celular não tem volta. Ele é uma nova “câmera”, assim como foi o digital um dia.

TUmob: Os aplicativos de pós-produção representaram uma mudança de paradigmas para você?

Ricardo Rojas: Sim. Eles representam os antigos laboratórios, os programas de computador, na era digital, para revelar, ajustar e/ou alterar as imagens. A diferença é que agora nós mesmos é que os operamos, sem interferência de ninguém. Eles facilitam e mudam a forma de trabalharmos a nossa fotografia (comparando com tudo que era usado anteriormente).

 

TUmob: Muitos fotógrafos consideram que a fotografia mobile, ou mobgrafia,está iniciando uma revolução na Fotografia clássica ou tradicional. Você concorda com isso?

Ricardo Rojas: Eu acredito que vivemos uma revolução (gosto mais da palavra transição) na fotografia de um modo geral. Como eu disse , vivemos uma transição na forma de fotografar, mas não faria comparações com a fotografia “clássica” pois o processo era diferente. Na analógica e na digital o que mudou de uma para outra foi apenas a mídia que registra a imagem. A forma/processo de trabalho era o mesmo, ou praticamente o mesmo. Com o celular, muda tudo! É outra fotografia.

 

TUmob: Quais foram, na sua opinião, os trabalhos mais significativos que você já realizou na fotografia mobile?

Ricardo Rojas: Eu gosto do ensaio do metro – “Série metro SP” (trabalho autoral). Gosto do trabalho que eu fiz na Comic Con Experience (CCXP) 2017, para a publicação digital NoMirror Mag. Mas acho que o trabalho que mais me marcou foi o “SUPERAÇÃO 2016" (autoral/comercial), que nos possibilitou a cobertura dos Jogos Paralímpicos Rio 2016 com celular. Isso foi desafiador, uma experiência única!

 

TUmob: Quais são seus planos para o futuro, como fotógrafo mobile? 

Ricardo Rojas: Quero aprimorar e estudar mais Fotografia, quero realizar mais trabalhos autorais e tentar encontrar um caminho para a nova fotografia comercial. 

 

(M.B.)

Jogos Paralímpicos Rio 2016 (01)
Jogos Paralímpicos Rio 2016 (02)
Jogos Paralímpicos Rio 2016 (03)
Jogos Paralímpicos Rio 2016 (04)
Série Metrô SP (01)
Série Metrô SP (02)
Série Metrô SP (03)
Série Metrô SP (04)
Comic Con Experience 2017 (01)
Comic Con Experience 2017 (02)
Comic Con Experience 2017 (03)
Comic Con Experience 2017 (04)

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