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"Só agindo nós descobrimos o que é errado ou certo...No final, o que conta é o trabalho duro". É com essa frase, de Beatrice Wood, que o fotógrafo e artista visual Penna Prearo convida os visitantes de seu site a conhecê-lo e à sua obra. Beatrice, ceramista norte-americana e uma das célebres fundadoras  do Dadaísmo, parece ter fornecido ao artista, que se autodenomina "um músico que faz fotografias", o respaldo necessário como anfitrião para saudar quem chega à sua "casa" virtual.

 

Surgido no ano de 1916 na cidade de Zurique, na Suíça, o Dadaísmo é um movimento artístico que marca o início da experimentação do "non-sense", ou falta de sentido da linguagem, como quando um bebê tenta se expressar. Em concepção, seria o movimento precursor do Surrealismo de Salvador Dali. Sua atmosfera é de confusão, de desafio à lógica e à postura racional. Em Francês, a palavra "dada" quer dizer "cavalinho de madeira". um ícone que, coincidentemente ou não, Penna Prearo carregaria nos braços, por montanhas, planícies e vales para compor uma de suas séries fotográficas mais intrigantes: "Carrossel para um Kubrick Solitário", que fez parte da exposição "Portal de Alice em Atlantis".

 

Tanto suas fontes de inspiração quanto a própria experimentação artística na Fotografia são muito ricas em conteúdo e diversidade. E não surgiram em sua vida instantaneamente, apesar de o acaso ser uma de suas formas preferidas de fotografar. Ele precisou percorrer uma jornada de muito trabalho, dedicação e pesquisa para que fosse capaz de reunir o conhecimento, a técnica e os resultados que almejava. Assim corroborando os dizeres por ele escolhidos, na fala de Beatrice Wood, na abertura de seu site.

 

Autodidata, Ariovaldo Carlos Prearo nasceu em 1949, em Maylasky, distrito de São Roque, no interior de São Paulo. Iniciou a carreira profissional em 1972, registrando com sua câmera shows musicais e peças de teatro. Atuou nas áreas de fotografia editorial e de publicidade e obteve grande destaque na produção de capas de álbuns de música de artistas consagrados, como Milton Nascimento, Elis Regina e Tim Maia. Foi colaborador das revistas Placar, Show Bizz, Trip, Caras e Saúde, e também de jornais diários, como O Estado de S. Paulo. Na década de 90, foi responsável pelo estúdio fotográfico do jornal Folha de S. Paulo.

 

Em 1978, o artista expôs algumas obras no 1º Colóquio Latino-Americano de Fotografia, no México e, no ano seguinte, na 1ª Trienal de Fotografia do Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP. Realizou no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo - MAC/USP, em 1993, a individual "Olho por Olho". As obras apresentavam nus femininos mascarados, ou com o rosto oculto. Ainda na década de 90, desenvolveu a série "São Todos Filhos de Deus", com fotos de grupos de pessoas portando o retrato de Jesus Cristo na face, como se fossem máscaras. Recebeu o prêmio aquisição do J.P. Morgan de Fotografia, em 1999.

 

Em 2014, sua exposição "Portal de Alice em Atlantis", na Galeria Lume, de São Paulo, foi destaque na agenda da Paris Photo, a principal feira de arte internacional para obras fotográficas. A série, com 21 fotografias, se utiliza de elementos da Pintura e do Cinema, por meio da utilização de intervenções visuais como prismas, filtros e caleidoscópios.

 

Em 2016, lançou o livro "Jornada do Alumbramento de Apollo", cujo título é inspirado em série homônima de fotografias, incluída na edição. Com coordenação editorial de Claudia Jaguaribe, a obra reúne 19 séries fotográficas  com diferentes temas, que ilustram um pouco dos últimos 18 anos de carreira do fotógrafo.

 

Os ensaios, como o de "Carrossel para um Kubrick Solitário", Prearo desenvolveu paralelamente ao seu trabalho na Imprensa. A construção de cada série se assemelha à elaboração de um álbum de música. Cada foto obedece a uma seqüência, que são como faixas musicais, ordenadas ao longo do álbum pelo artista, para evocar uma progressão emocional, um sentimento específico. As encenações que traduz da sua imaginação para o cenário realista que explora em suas obras, uma vez ordenadas, devem obedecer à sequência preestabelecida e serem assim apreciadas pelo observador. Em cada uma das suas "faixas", Prearo trabalha agregando à fotografia elementos da pintura e do teatro.

 

E, assim como num álbum, cada trabalho permeia a construção de um conceito, de uma estória, da criação de um personagem central. Em "Carrossel para um Kubrick Solitário", o fotógrafo imagina a estória de Kubrick, um cavalinho de carrossel que quer escapar da enfadonha vida de trotar em círculos. Já o nome do cavalinho é uma referência ao diretor de cinema Stanley Kubrick.

 

A chegada dos "espertofones", como ele mesmo descreve os aparelhos celulares do tipo smartphone, praticamente coincidiu com o surgimento de uma limitação física, que em pouco tempo o dificultaria a sair a campo com sua máquina fotográfica e equipamentos: A Síndrome de Parkinson. A condição, que pode afetar severamente a coordenação motora, foi o motivo preponderante na decisão de Penna Prearo em começar a utilizar o seu "espertofone" (um Motorola G4 Plus) para fotografar. Com a nova ferramenta, mais anatômica e muitas vezes mais leve  que o seu equipamento fotográfico digital, voltou a ter a agilidade necessária para as capturas mais precisas.


Em 2017, desafiado pelo curador Fausto Chermont, o fotógrafo produziu fotografias com o seu celular para uma exposição no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, ao lado dos colegas Nair Benedicto, Maureen Bisilliat e German Lorca, durante o Flamob - Festival Latino-Americano de Mobgrafias, intitulada "peNNúltima sessão". A partir daí, ele não parou mais. Este ano, um de seus trabalhos produzidos com a nova ferramenta, “Tribunal das pequenas alterações”, que já esteve em exposição em Curitiba, no Paraná, em breve irá itinerar para as cidades de Salvador (Bahia) e Uberlândia (Minas Gerais).

TUmob: Quando você começou a fotografar com o celular? Quais foram as

condições que o trouxeram à fotografia mobile?

 

Penna Prearo: Isso aconteceu basicamente por uma questão de saúde. Fui diagnosticado com síndrome de Parkinson o que me obrigou a usar equipamento mais leve, coisa que aliás já tinha feito bem antes, ao trocar câmeras e tripés pesados por equipamento de manejo mais fácil.


 

TUmob: Qual é a sua relação com o seu celular? Para que você costuma

utilizá-lo, além da Fotografia?

 

Penna Prearo: Como telefone e às vezes como tela para filme.

 


 

TUmob: Essa relação que você iniciou com o celular alterou sua percepção

como fotógrafo?

 

Penna Prearo: A percepção já estava lá, tive que aprender a trabalhar com uma nova  ferramenta que me ajuda muito no rascunho de ideias.

 


 

TUmob: Como foi, para você, o processo de mudança da fotografia

analógica para a digital e desta para a tecnologia mobile? Couberam alguns desafios? Algum tipo de superação?

 

Penna Prearo: Da fotografia feita com filmes para digital teve sim uma mudança radical de procedimentos e passei um bom tempo no realinhamento.

Comecei a fotografar em 1970 , foram 35 anos de prática constante em muitos setores da fotografia o que me deu conhecimento bem alicerçado.

Da fotografia digital para o uso do "espertofone" a transição foi mais simples.

 


 

TUmob: O que o imediatismo possibilitado pela foto feita com celular trouxe

para você, para o seu processo criativo, enquanto profissional da

Fotografia?

 

Penna Prearo: Imediatismo como rascunho é natural, até aí nada de novo no front. Desenvolver a ideia, sair para fotografar, garimpar material não é garantia que você vai "bamburrar" só porque está usando um "espertofone".

 


 

TUmob: Os aplicativos de pós-produção representaram uma mudança de paradigmas para você?

Penna Prearo: A fotografia digital como um todo mudou a forma de tratar as imagens. Não é o equipamento que faz o fotógrafo, porém os aplicativos facilitaram muito o processo de finalização, de tratamento da imagem. O bom fotógrafo precisa de interlocução, permear outros meios. De qualquer maneira, é preciso muito empenho e trabalho.

 

TUmob: Você costuma dizer que o seu celular é a sua "machadinha". Por que? Seria alguma referência metafórica à ferramenta que era utilizada pelos índios na captura de animais, entre outras atividades? O que você quer dizer com essa comparação?

 

Penna Prearo: Só me refiro a ele como minha “machadinha” porque a traquitana que montei para usar meu "espertofone" de maneira mais adequada

ficou mesmo parecida com uma machadinha.


 

TUmob: Muitos fotógrafos consideram que a fotografia mobile, ou mobgrafia, está iniciando uma revolução na Fotografia clássica ou tradicional. Você concorda com isso?

 

Penna Prearo: Não tenho distanciamento para opinar sobre isso.

Continuo a fazer fotografia como sempre fiz, só mudaram as ferramentas. Acho que a mudança drástica aconteceu quando houve a transição do filme para o digital. Eu penso fotograficamente e não vejo que o celular esteja mudando a Fotografia a esse ponto. O processo é o mesmo, é preciso ter um conceito, sair a campo, escolher a cena, observar a luz, essas coisas.

 


 

TUmob: Quais são seus planos como fotógrafo mobile? Além das exposições que já realizou no MIS e no Museu Oscar Niemeyer, está preparando algo novo? Pode nos contar um pouco sobre os seus projetos futuros?

 

Penna Prearo: A exposição que realizei no  Museu Oscar Niemeyer de Curitiba em 2017, com meu trabalho “Tribunal das pequenas alterações”, agora segue para a itinerância da mostra “ A VASTIDÃO DOS MAPAS, que será levada primeiramente para Salvador (BA) em março/maio  e depois para a cidade de Uberlândia (MG) em julho/agosto.

(M.B.)

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Penna Prearo - Tribunal das Pequenas Alterações - 07