#ODique

Com mais de 22 mil pessoas vivendo em barracos improvisados sobre os mangues da cidade de Santos, litoral de São Paulo, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Dique da Vila Gilda é a maior favela sobre palafitas do Brasil. Os seus incontáveis becos e vielas estreitas ocupam uma área de milhares de metros quadrados sobre o Rio do Bugre, na Zona Noroeste do município. A pontuação de Santos no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é equiparável à da Noruega. Porém, enquanto a média de renda dos moradores da orla da praia do Boqueirão é de R$ 4 mil, por exemplo os da Vila Gilda é de R$ 400,00”. Ainda que o IDH da cidade ocupe a 6o posição no ranking dos municípios brasileiros, a enorme desigualdade social ainda é um desafio a ser trabalhado e vencido pelo Poder Público.

Essa desigualdade, as consequências do crescimento demográfico desordenado, o dia-a-dia de quem vive na área mais pobre da cidade, tudo isso poderá ser agora retratado pelos próprios moradores do Dique, que sairão na companhia de fotógrafos experientes pelas ruelas da favela em busca de cenas, retratos, objetos de seu cotidiano. Tudo documentado com os seus próprios aparelhos celulares. As mobgrafias (fotografias feitas com dispositivos móveis) que resultarem da iniciativa passarão por uma curadoria e as melhores imagens serão exibidas durante a segunda edição do Valongo Festival Internacional da Imagem, de 4 a 8 de outubro.

Os moradores da Vila Gilda que quiserem participar receberão um treinamento nos dias 26, 27 e 28 de setembro, com oficinas que os ensinarão a utilizar o aparelho celular na produção de fotografias e transmitirão os fundamentos básicos da arte fotográfica. O treinamento inclui ainda caminhada e imersão pelas passarelas e vielas do Dique, além de uma discussão final com avaliação de resultados. As oficinas serão oferecidas gratuitamente aos moradores graças a uma parceria entre a MOBgraphia Cultura Visual, de São Paulo, a TUmobgrafia (ambos movimentos dedicados à fotografia mobile), o Estúdio Madalena (realizador do festival) e o Instituto Arte no Dique.

O objetivo do trabalho é, além de documentar como acontece a vida naquela região da cidade, contribuir para a recuperação da autoestima dos moradores. Formado em grande parte por imigrantes do Norte e Nordeste do país, o Dique da Vila GIlda adotou esse nome a em memória à parteira que ajudou no nascimento dos filhos das primeiras mulheres que chegaram à região. Originalmente pescadores, os moradores foram mudando de profissão à medida em que a degradação da área de manguezal aumentou.

Os manguezais são ecossistemas costeiros que se formam no encontro de águas doces e salgadas. Esses sistemas concentram grande quantidade de matéria orgânica em decomposição, que alimenta desde crustáceos e peixes até aves e mamíferos. São também os manguezais o berço de reprodução dessas espécies. A ocupação ilegal dessas áreas, mais a contaminação química provocada pelas grandes indústrias instaladas na região são as responsáveis pelo estado de degradação do Dique. Sem saneamento básico, as moradias possuem vasos sanitários improvisados sobre buracos abertos no chão de madeira dos barracos. Os dejetos vão parar, sem qualquer tratamento, sobre a maré. A mesma maré em que as crianças que lá vivem mergulham e nadam todos os dias nos meses mais quentes do ano.

Os fotógrafos Cadu Lemos e Ricardo Rojas, da MOBgraphia Cultura Visual, mais os fotógrafos André Luiz Saleeby e Tom Leal e o jornalista Maurício Businari, da TUmobgrafia, serão os responsáveis pelas oficinas. Quem for morador do Dique da Vila GIlda e quiser participar da iniciativa, é muito fácil. Basta ter um aparelho celular e vontade de aprender a fotografar. Os interessados devem se inscrever no site do Arte no Dique ( www.artenodique.org ). O instituto fica na Avenida Brigadeiro Faria Lima, 1.349, no Rádio Clube. O telefone é 3291-9464.

A curiosidade e o desejo de aprender são inerentes à raça humana. O que nos diferencia como indivíduos é o entusiasmo com que nos envolvemos nas atividades de aprendizado e a persistência com que aplicamos o que aprendemos, na busca pelo aperfeiçoamento. As oficinas de mobgrafia que realizamos com a comunidade do Dique da Vila Gilda nos mostraram que o talento para as artes pode estar latente em muitas pessoas, porém oculto em uma parte de suas personalidades por conta das circunstâncias a que são submetidas durante a vida. Identificar e revelar esse talento pode ser uma tarefa tão gratificante quanto surpreendente, como pudemos comprovar com as oficinas. Com poucas horas de treinamento, muitos dos participantes aplicaram em campo, com muito desejo de aprender, entusiasmo e persistência, alguns dos princípios e referências que ensinamos e o resultado foi absolutamente fantástico!

 

Já estamos trabalhando para que esta ação, que culminará  na exibição das melhores imagens feitas pelos moradores durante a segunda edição do Valongo Festival Internacional da Imagem 2017, que começa na próxima quarta-feira (04/10), seja a semente de um trabalho duradouro, que possibilite o aprendizado e o aperfeiçoamento do repertório imagético coletivo para um número cada vez maior de pessoas. A arte fotográfica feita com dispositivos móveis, por seu caráter democrático e inclusivo, é capaz de nos oferecer olhares tão ricos quanto diferenciados, seja pela quantidade de pessoas utilizando as tecnologias disponíveis, seja pela qualidade e inovação dos aplicativos de pós-produção. Novas pessoas fotografando, novos bancos de imagens, novos repertórios. Como o próprio lema do festival sugere este ano, que esta também seja uma "obra em andamento".

 

Obrigado, MOBgraphia Cultura Visual, Cadu Lemos e Ricardo Rojas, pela generosidade em compartilhar conosco de seus talentos por um bem maior. Arte no dique - Oficial, somos gratos pela parceria. Zé Virgílio, Felipe Brenda Baldanseguro, Nice Gonçalvez e Bruno Fernandes: #TMJ. Um salve também para a galera do Dique, que nos recebeu com muito respeito e simpatia, autorizando a nossa presença por lá. Obrigado Estúdio Madalena, pelo convite e Prefeitura de Santos pelo apoio. A Jamir Lopes e Iatã Cannabrava, nossa gratidão. Sem o cuidado de vocês e o carinho que nutrem por esse sonho coletivo, este trabalho não teria sido possível.