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Fotógrafo, curador e agitador cultural, Iatã Cannabrava desenvolveu ao longo de sua carreira trabalhos documentais com a paisagem urbana das cidades, especificamente das periferias das grandes metrópoles, no seu ensaio "Uma Outra Cidade" e na série de trabalhos que realizou a partir do início do século XXI. Participou de mais de 40 exposições, foi ganhador dos prêmios P/B da Quadrienal de Fotografia de São Paulo em 1985; do concurso Marc Ferrez da FUNARTE, em 198; e de dois prêmios da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, em 1996 e 2006.

 

Possui três fotolivros publicados: "Casas Paulistas", em 2000; "Uma Outra Cidade", em 2009; e "Pagode Russo", em 2014. Suas fotografias integram as coleções MASP-Pirelli, Galeria Fotoptica, Joaquim Paiva, MAM/São Paulo, Fundação Marcos Amaro e Museu Afrobrasileiro e estão publicadas em doze livros de autoria coletiva.

 

Como agitador cultural, Iatã foi presidente da União dos Fotógrafos de São Paulo de 1989 a 1994; fundador da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil (RPCFB) em 2010; criou e dirige o conjunto de empresas do Estúdio Madalena (editora, livraria, escola, produtora cultural e documentação fotográfica), onde fez a curadoria e organizou mais de 100 exposições.

 

O fotógrafo ministra workshops desde 1996, além de projetos especiais, como: "Revele o Tietê que Você Vê", em 1991; "Foto São Paulo", em 2001; "Povos de São Paulo – Uma Centena de Olhares sobre a Cidade Antropofágica", em 2004; "Expedição Cívica, Ecológica e Fotográfica De Olho nos Mananciais" em 2008 e o "Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero-americanos" na cidade de São Paulo, em 2008, e na cidade de Santos, em 2014.

 

Dirigiu o festival Paraty em Foco por 10 edições, coordena o Fórum Latino-americano de Fotografia de São Paulo, realizado pelo Itaú Cultural, já há cinco edições e foi um dos criadores do Valongo Festival Internacional da Imagem, dirigindo suas duas primeiras edições. Na última década, tem integrado diversos júris internacionais: POY-Latan, 2008; World Press Photo, 2012; Nikon 2013 E Syngenta Photography Awards, 2014.

  

Tumob: Por mais de uma década, você acompanhou seus pais durante os tempos de exílio, tendo de conviver com as dores e alegrias que marcam os cidadãos da américas Latina e Central, vivendo em países como Cuba, Bolívia, Panamá e Peru. De que maneira essa pluralidade cultural o influenciou em sua trajetória como fotógrafo?
 

Iatã Cannabrava: Demorei muito tempo para fazer de uma tragédia algo mais divertido para minha vida. Não tem nenhum sentido em cultuar a tragédia. Por mais que às vezes se tenha lembranças tristes do medo, da perseguição, da ditadura militar te perseguindo no Exterior...quando se é criança isso é muito assustador. Hoje sobrou o amor à diversidade. Eu gosto das pessoas estranhas, diferentes. Eu gosto das pessoas diferentes porque eu convivi com muita gente diferente ao longo da minha vida, passando por muita coisa diferente. Não me acho único, não me acho especial, me acho apenas um privilegiado de ter vivido em mundos muito diversos, muito rapidamente.


TUmob: Você assistiu ao fim da "guerra fria". Foi testemunha ocular do que ocorria na Rússia quando, em 1985, viajou até lá para participar do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes pela Paz Mundial. A experiência lhe rendeu 47 fotografias, reunidas em livro ("Pagode Russo") e publicadas cerca de 30 anos depois. Você pode nos contar um pouco sobre essa viagem? E por que o ensaio fotográfico foi publicado somente três décadas depois? Qual é a história por trás dessa publicação?

 

Iatã Cannabrava: Eu fui participar de um Festival Mundial da Juventude dos Estudantes pela Paz e Solidariedade entre os Povos...tinha "povos" e "mundial" no nome, quase um pleonasmo. E "solidariedade e socialismo" é quase um pleonasmo, né... tudo isso é uma história do pleonasmo mais mentiroso do mundo, que era que o bem iria aparecer na forma de socialismo. O capitalismo já era um mal, o socialismo virou um mal e o mundo adora o mal. Duvido que tenha uma criança que você encontre hoje que prefira o Luke Skywalker ao Darth Vader. Eu particularmente me apaixonei pelo Darth Vader no dia em que parei de ser vítima. Nunca fui malvado o suficiente para levar a sério o Darth Vader, mas detesto o Luke Skywalker. Ele é um chato de galocha. Eu fui para Moscou militar, como militante político. Tive a sorte de ser eleito num congresso de juventudes de partidos políticos, do PDT, do qual era militante. Passei a perna em todo mundo que pude e fui lá militar. Cheguei lá e no primeiro dia me deparei com uma bilateral (quando os países se reúnem para discutir uma situação política). Era uma bilateral entre a Juventude Socialista do PDT do Leonel Brizola, do Brasil, e a juventude de Todor Zhivkov, ex-presidente da Bulgária. Era sobre a situação política da Bulgária. As mulheres búlgaras e os homens búlgaros tinham o bigode do mesmo tamanho. Foi a primeira coisa que me impressionou. Depois vi as portuguesas, e amei muitas portuguesas bigodudas, mas naquele momento as mulheres fortes, grandes, de origem árabe, bérbere, não sei direito qual a origem dos búlgaros, falando grosso, firme, em um idioma que eu não entendia nada. Sem tradutor me pareceu uma esquizofrenia impossível de suportar. Peguei uma câmera fotográfica - uma esquizofrenia mais leve - saí caminhando pelas ruas. Testemunhei sem perceber o início do fim da guerra fria e fiz um livro 30 anos depois porque minha mulher - com quem eu casei e tenho um filho maravilhoso e tive uma vida maravilhosa nos últimos anos - simplesmente me perguntou se era um blefe ou verdade que eu tinha estado em Moscou ou se era parte de uma cantada vagabunda de brasileiro, naquele estilo brasileiro mentiroso que eu tantas vezes fiz o papel direitinho. Daquela vez não era um blefe...por isso o casamento durou tanto tempo com tanto amor. Porque afinal de contas eu tinha estado em Moscou em 85, não sabia que o Gorbachev ia transformar alguma coisa, não sabia de nada. Não suportei aquele congresso chato mas construí um ensaio fotográfico impecável, de unidade, que eu não sei de onde eu tinha aprendido. Não gostei do resultado quando cheguei no Brasil, guardei tudo com muito carinho, porque tinha muito medo que o material estragasse. Quando a Kátia, minha esposa, foi verificar se eu tinha feito isso ou não, se era verdade essa história tão absurda, encontramos os slides desbotados com o tempo de leve, muito bem cuidados, e esse leve desbotamento servia para mostrar o tempo que havia passado entre uma Moscou de 1985, ingênua, com toda a sua fama de violenta (porque o socialismo/comunismo de Stalin tinha matado tanta gente que a Rússia, na época União Soviética, tinha fama de violenta). Mas Moscou era a cidade mais pacífica que eu vi na vida, mais naif, mais tranquila, mais triste e alegre ao mesmo tempo no seu verão. O verão tem dias muito longos, nunca fazia mais de 30 graus, nunca tinha um sol escaldante...é um verão onde o Bresson (Cartier Bresson) mostra em São Petersburgo a pessoa tomando sol de pé, né? Não há sol deitado, porque o sol não vem de cima, vem do lado, ele é muito ao norte. E o livro trata disso, de como alguém ingênuo pôde ver uma cidade ingênua às vésperas da maior transformação do mundo político na época.

 


 

TUmob: Nos meios acadêmicos e até nos bastidores da profissão, a fotografia feita com celular ainda hoje é vista como a "prima pobre" da fotografia produzida por máquinas profissionais (digitais ou não). Há quem ainda "torça o nariz"...mas e você? Quando você começou a "flertar" com a fotografia mobile?

 

Iatã Cannabrava: Eu vou te dizer uma coisa...isso não tem a menor importância. Vamos fugir desse assunto. Minhas primeiras fotografias em Cuba - meu professor de Inglês, que é um cara que até hoje não descobri o que significa na minha vida, se foi meu melhor amigo, meu irmão, que relação eu tenho com esse homem que salvou minha vida numa circunstância  muito difícil da minha juventude? Bem, esse cara me deu uma câmera soviética de plástico que se chamava...vamos inventar um nome para ela agora...Olga! Como a famosa Olga (Olga Benário Prestes, militante comunista alemã de origem judaica). Eu deixei ela no Panamá, um país extremamente tropical, na parte de trás do carro. Meu pai tinha um carro no Panamá. A gente vivia numa pindura lá em Cuba, trabalhando pela Revolução no campo, na lavoura. Então achei deslumbrante que meu pai tinha carro, aprendi a dirigir o carro e um dia deixei a câmera na parte de trás do carro, pegando sol, no Panamá. Quando me dei conta, encontrei apenas uma bolinha de plástico derretido! Porque, na União Soviética, não se pega sol deitado, o sol vem de lado e suave. A câmera foi fabricada para a União Soviética e não para o sol escaldante do meio-dia no Panamá. Então a minha primeira câmera precária - assim que eu gostaria de chamar o celular - foi uma Olga ou pseudo-Olga, derretida ao sol. Já fotografei muito com o celular, mas particularmente gosto de câmeras muito boas hoje em dia, gosto de muita definição, muita resolução, gosto de 50, 70, 80 Megapixels, que se consegue multiplicando o número de fotos que você faz para construir uma única foto.

 

TUmob: O que o influenciou na decisão de incluir na primeira edição do Valongo Festival Internacional da Imagem, em 2016, exposições voltadas à fotografia mobile na programação? A expo #pelobairrovalongo, da TUmobgrafia, foi uma delas. Teria sido esta a primeira vez que a fotografia mobile ocupou o seu espaço em um festival internacional? Estaria a fotografia mobile conquistando um novo status, preenchendo uma lacuna criada com o avanço tecnológico? Você percebeu uma evolução nesse sentido?

 

Iatã Cannabrava: É muita injustiça dizer que essa teria sido a primeira vez. Difícil saber isso, a gente nunca sabe o que o outro fez. Mas posso dizer que foi muito legal trabalhar com a TUmobgrafia no primeiro Valongo. Vocês entenderam o Festival, acho que entendem o Festival e não acho necessário responder se foi o primeiro, segundo ou terceiro. Espero que a gente faça o décimo projeto em breve!


 

TUmob: Você mantém uma boa relação com o seu celular? Costuma utilizá-lo para fotografar, sem receio de se arrepender de não ter usado uma máquina?

 

Iatã Cannabrava: Pura dependência! Sou dependente de remédios, já fui dependente de drogas, já fui dependente de álcool, tento me livrar das dependências e não consigo.  Celular é a minha pior dependência hoje, não vejo a hora de deixá-lo na mão de quem trabalha comigo, de quem me ajuda, de quem entende a quantidade de coisas e loucuras em que eu me meto para que filtre um pouco isso. Celular é um perigo, a gente se meteu com uma máquina de comunicação perfeita, grudada no corpo 24 horas. Isso prejudica a sanidade mental, isso prejudica nossa sabedoria futura. O tempo é fundamental em tudo, você tem que parar alguma hora, tem que dormir. Eu não consigo dormir porque eu quero atender o telefone na hora que tocar, quero ver as fotos que eu fiz, quero ver o que saiu sobre mim no Facebook, é uma egotrip infernal e o celular ajuda a fazer isso mais infernal ainda. Eu espero não estar magoando ninguém com essa resposta nem estragando o patrocínio de ninguém no futuro - de um festival, de um projeto - porque eu sei que é muito difícil conseguir apoio das empresas de celular. Mas eu espero muito que essa moda acabe  e que o mundo volte a usar o telefone para um telefonema por dia.

 

TUmob: Como foi, para você, o processo de mudança da fotografia analógica para a digital e desta para a tecnologia mobile? Couberam alguns desafios? Algum tipo de superação?

 

Iatã Cannabrava: Olha vou dizer uma verdade que eu tenho dúvidas às vezes. Eu amo laboratório, amo preto e branco, aprendi a ser um bom laboratorista...hoje eu sei que eu era um bom laboratorista. Sempre me achei medíocre em tudo o que fiz. Quem acha que eu sou importante, que eu sou famoso, que eu sou especial, vai aprendendo aí: só fiz merda durante os primeiros anos da minha fotografia. Nunca tive uma linha de conduta, não sabia o que queria fazer. Um dia descobri que o laboratório me disciplinou. Aprendi a ser laboratorista, aprendi serviços de laboratório, revelava filmes dos outros. Nunca mais vou fazer isso na vida! Se você ferra o filme de um fotógrafo famoso, você se mata, né? O seu, você fica triste, mas se você pega o filme do Capra (Frank Capra), que voltou da guerra, e vai revelar e ele gruda na espiral na hora de revelar? Desenrolar o filme na espiral é um santo suplício, ampliar uma foto é um santo suplício, fixador fede! Mas é um suplício que eu amava, eu tinha amor por essa história. Hoje eu não entraria num laboratório nem por brincadeira. Nem para seduzir a mais bela dama ou o mais belo senhor, por nada no mundo entraria. Nem para seduzir um animal, um bicho, uma planta, nem pela sedução, que é a coisa que mais me encanta hoje, eu entraria num laboratório. Porque um laboratório é perigoso, você pode jogar produtos inflamáveis no lixo, sem perceber, você gasta duas horas para revelar, lavar um filme. Duas horas de torneira aberta aqui em casa deve ser o que a gente gasta por semana de banho! É importante entender que a fotografia poluía, destruía, era mágica, era maravilhosa. Como tudo na vida. Não há bem e não há mal. E a fotografia digital a gente não sabe o quanto polui...vamos descobrir amanhã que os chips largados por aí, as baterias de lítio vão ser cancerígenas, vai ter gente que você ama morrendo por causa delas...enfim, o mundo é irresponsável! O era no analógico e continua sendo no digital. Então faça imagens, no método que tiver que fazer, porque o documento fotográfico é a única referência das nossas irresponsabilidades e que poderemos interpretar, sem que venha pré-analisada, num futuro próximo.

 

TUmob: Em entrevista concedida em 2010 ao jornalista Paulo César Boni você disse que se considera um profissional "multifuncional", por conta de sua versatilidade de atuação. Você fotografa, realiza curadorias, organiza eventos, agita a cena cultural brasileira e ainda escreve e edita livros. Qual é a paixão que lhe move? Qual é o ponto central de força, de fusão dessas diversas facetas?

 

Iatã Cannabrava: Bom...eu vou completar 56 anos este ano, é uma idade que te permite responder com muito mais sinceridade, então...vamos lá. Há uns cinco anos atrás, o Eduardo Muylaert, que já me entrevistou muitas vezes também e que é um advogado muito inteligente, foi secretário de Segurança Pública, um fotógrafo com um trabalho surpreendente em alguns momentos, interessante em outros, enfim, um amigo meu, me disse um dia: "Iatã, já acabou a vingança?". E eu disse...ainda não! Só estou me vingando do bullying que fizeram em algum momento da minha vida - ou que inventei que fizeram, porque às vezes a gente é vítima inventada - e o bullying incluía uma série de coisas e então eu fui resolvendo área por área e nisso construí coisas que eu gosto, além da raiva, da mágoa e tudo, como o meu trabalho fotográfico. Trabalho que eu respeito, acho que ele é mais doce do que eu, apesar dos temas difíceis. Como os livros que eu editei - nenhum por vingança, às vezes não vingava nem vendendo...uma ironia com a palavra "vingança"! Enfim...eu fiz tudo isso com o desejo de ser alguém. Fui e não consegui parar. Então não sei quando eu vou parar. Eu quero construir mais coisas, quero fazer parte da história do mundo em que eu vivi. Seja como um anônimo que passou despercebido - não sei se eu aguento, o ego é grande. Mas pelo menos como anônimo, que citem alguma coisa. Detestaria acordar numa encarnação - que não acredito que exista, mas tem tanta gente que acredita que começo a achar que é possível - e descobrir que o que eu fiz não valeu nada para o futuro. Meu único objetivo é criar algum legado...mas começou como vingança.

 

TUmob: O que você pensa sobre o crescimento da fotografia mobile no Brasil e no Mundo?

 

Iatã Cannabrava: Queridos TUmobs...vocês são maravilhosos, porque em primeiro lugar vocês são verdadeiros. Eu decidi entender o festival de Santos, as minhas relações em Santos de um outro modo. À medida que a minha necessidade de vingança foi diminuindo, eu fui prestando mais atenção às pessoas. Antes alguém me dizia se elas eram úteis ou não para mim. Hoje eu presto muita atenção nas pessoas, prestei muita atenção em vocês e juro que não tem nada a ver com o celular. Continuem sendo curiosos pelo mundo, seja com celular, seja lá com o que for! Não vamos dar importância para nada disso. Vamos dar importância para as madeiras que sobraram da exposição, do projeto que nós fizemos para o Festival do Valongo no ano passado e que ajudaram a reconstruir a casa de um dos participantes da oficina de fotografia mobile no Dique da Vila Gilda, o Piloto. Nós fomos fazer, juntos, o projeto mais legal da minha vida nos últimos anos. Nós fomos para aquele alagado, mangue, para as palafitas onde vive uma população em extrema pobreza e fizemos um trabalho de fotografia muito importante de autoestima para a reconstrução daquele espaço sem que precisasse tirar as pessoas de lá. É muito fácil para o mundo, quando as pessoas moram sobre o esgoto, tirá-las do local e vender o terreno para construir prédios de gente rica em vez de corrigir o problema. E assim vão "higienizando" o Brasil, de modo "hitleriano", ou "stalinista", ou de qualquer outro assassino em série por aí, ou de uma gripe espanhola. Se mata para liberar espaço, para que o burguês tenha mais espaço. Mas uma coisa eu sei. Nós deixamos as madeiras do festival de presente para o Piloto, que havia perdido a casa e assim ele pôde reconstruir a palafita dele, para continuar morando num dos locais mais lindos que já vi, com vista para a Serra do Mar, em cima de um rio sujo, cheio de problemas. Mas ele ficou muito feliz em ganhar uma casa nova, com tábuas novas, que a TUmobgrafia teve a sensibilidade de doar - independente do trabalho ter sido realizado com celular ou não.


 

TUmob: Você acredita na possibilidade de profissionalização da fotografia feita com dispositivos móveis? Por que?

 

Iatã Cannabrava: Vou responder a essa pergunta contando uma história. Luiza Dör, uma fotógrafa de Lajeado (RS), me encheu de alegria recentemente ao responder, em uma entrevista, o quão foi importante sua passagem pelo Estúdio Madalena. Ela tinha todos os dotes para ser uma modelo de Lajeado...dizem que em Lajeado só nasce modelo, só tem gente bonita. É uma dessas cidades do Sul do Brasil que juntou etnias que têm o gosto do momento, da sociedade contemporânea e as mulheres são consideradas bonitas. Ela não só não virou modelo, como virou fotógrafa, veio para São Paulo, frequentou o Madalena, malhou como todo mundo que na época entrava para o Madalena, foi produtora, abusamos dela, exageramos, devo ter sido grosso, mal educado e...ela só fala bem! Porque ela decidiu respeitar ela mesma e se perguntar: "Mas por que eu vou falar mal do lugar onde aprendi?". Enfim...hoje ela é uma grande profissional e trabalha com o celular. Não sei se isso responde à pergunta, mas ela já fez 12 capas do New York Times com o celular. Isso é trabalho, isso é responsabilidade, isso é seriedade, isso é uma verdade, não nego. Como não nego que ela aprendeu com a gente mais do que usar o celular. Ela aprendeu ética, sofrimento, dor, vingança, raiva, amor, paixão, tudo o que você tem, de fato, de fantasia, de tentativa ou de sonho você realiza uma parte. Se essa parte for bem resolvida na sua alma você é alguém em paz com o mundo e o mundo vai ter alguma paz com você. Senão é guerra! Isso não quer dizer que um seja bom e o outro ruim.

 

Tumob: Quais são, na sua opinião, as vantagens e desvantagens da fotografia mobile, como é feita hoje?

Iatã Cannabrava: Sabe o que eu penso quando faço uma fotografia no celular? Que eu consigo enviá-la instantaneamente. Eu poderia fazer a foto na minha Fuji, baixar para o cartão, transferir para o computador e enviar para alguém. E esse é o grande segredo da fotografia feita com o celular. Este imediatismo, essa coisa de "Mídia Ninja", adoro a ideia dos Mídia Ninja. Conheci quatro deles, mas eles na verdade são mais de um milhão! É Mídia Ninja quem quer sê-lo. E, se há um grupo de moças e rapazes que dirige esse movimento nacionalmente, é porque existe o celular. Eles são inteligentes, brilhantes e existe o celular. Existe essa dinâmica de poder mandar a imagem no ato da captura - algo que eu tenho dificuldades, que eu morro de medo de mandar a foto errada. Já aconteceu de eu mostrar sem querer a uma senhora uma foto pornográfica que eu havia recebido via WhatsApp e se misturou entre as minhas fotos. Então há uma facilidade no celular que é o imediatismo...e o risco que advém do imediatismo, o risco de um acidente como esse que eu contei.

 

TUmob: Alguns teóricos consideram que a fotografia mobile está iniciando uma revolução na Fotografia clássica ou tradicional. Você concorda com isso? Por que?

 

Iatã Cannabrava: O movimento modernista na Fotografia é que fez revolução. Eu estou estudando a Fotografia Moderna, que teve início em 1938 com a criação do Foto Cine Clube Bandeirante. E eles eram um coletivo, na época, muito parecido com os coletivos de fotografia mobile. A diferença é que o correio era um método mais lento que a tecnologia mobile. Mas eles iam em 80 pessoas em um avião para a Ilha de Paquetá (RJ). Um local em que praticamente mal cabia o avião. Você aterrissa e praticamente acaba a ilha. A pista do aeroporto Santos Dummont, no Rio de Janeiro, é maior que a pista de Paquetá, que pega a ilha de lado a lado. Além disso, praticamente não havia nada em Paquetá. E lá iam 80 fotoclubistas para Paquetá, fotografavam os 80 a mesma coisa, resultando em algumas fotos idênticas e outras, não. E isso nunca ofendeu ninguém. Porque os fotoclubistas eram amadores e não odiadores. Existe uma interpretação errada no Brasil para a palavra "amador", que ganhou um conceito pejorativo. Amador não tem nada de pejorativo, é um cara que ama o que faz! Eu me considero um amador de algumas coisas na vida  - e odiador de outras. E eles faziam fotografia sem pretensão, com leveza. Então isso foi uma revolução, o que os modernistas fizeram naquele tempo. Como falar de revolução hoje? Temos que dar um tempo para a maturação. Uma revolução, para ser analisada, precisa de tempo e história.

 


 

TUmob: Você acredita na Fotografia como um mecanismo de transformação da sociedade? Por que?

 

Iatã Cannabrava: Já me perguntei muito isso, já dei respostas variadas, já falei que sim e acho que a gente tem que ser um pouco mais responsável hoje. Primeiro, todo mecanismo que tenha sido utilizado com a intenção de mudar a sociedade acabará funcionando de um jeito ou de outro. Uns mais, outros menos, porque a única coisa que vai fazer a sociedade mudar é a intenção de mudar a sociedade Quando essa intenção for um grande movimento coletivo, ela começa a surtir efeito. Mas enquanto isso não acontece, pequenas ações onde o instrumento - que mesmo não sendo barato se populariza e leva o acesso a essa linguagem de conversação chamada imagem - são capazes de alguma coisa. Vou explicar de maneira diferente...eu tenho uma prima que foi adotada pela minha tia. Ela é negra, filha de uma empregada doméstica. Essa prima viveu com a gente um tempo, depois voltou para a periferia, pois se sentia mais à vontade lá. Depois de uns anos, a revi e ela tinha tido um filho, já rapaz. Um rapaz lindo, doce, suave, que tornou-se gerente de banco. O tempo passou, ele casou-se com uma mulher negra, bonita, mais velha que ele. Nunca soube o que ela fazia da vida. Um dia estávamos num almoço de família e alguém pediu uma selfie. Como eu sou incompetente para esticar a mão para uma selfie, rapidamente me coloquei entre os modelos, para todo mundo saber que eu não queria fotografar. E aí a mulher do filho da minha prima, que descobri que tinha trabalhado com marketing direto de telefones celulares em lojas, pegou dois telefones ao mesmo tempo e esticou o braço para fazer a foto com esses dois celulares ao mesmo tempo. Assim, ela aparecia na foto e conseguia "encaixar" a família toda ao fundo. Esse domínio eu só tinha visto igual com moto e arma. Um bom soldado, um bom assassino, um bom policial é o cara que não tem medo da arma e nem tem super confiança na arma, ele só a maneja bem. Um bom fotógrafo profissional é aquele cara que põe a máquina no pulso ou no pescoço e não precisa mexer no dedo para disparar uma foto. O dedo é que mexe e dispara uma foto avisando quando se está fazendo a foto. A almofadinha do dedo, a parte debaixo, aquele músculo inexistente que faz a foto sozinho, quase que por magia, é o segredo do fotógrafo acostumado com o seu ofício/equipamento. E a moto...é o cara que faz uma curva e nunca se perguntou quantos quilogramas ele põe para a direita para fazer uma curva de 90 graus. Se ele perguntasse, ele cairia. Isso quer dizer que "a memória gruda na pele". Mas por que estou dizendo isso? Porque a fotografia mobile e essa democratização do que vocês chamam de fotografia mobile permite que todo mundo hoje possa fotografar. É uma coisa que, se usada com o instinto - nas mãos de alguns caberão dois celulares, nas de outros, um só - transformará a comunicação de um mundo que era "nas letras burguesas" para uma fotografia um pouco mais democrática, que é "literatura".


 

TUmob: Quais são os seus planos futuros?


Iatã Cannabrava: Bom...primeiro você tem que partir do princípio que, para criar um plano futuro, você planeja, né? Eu nunca saberia dizer se fui um planejador...eu sou um inventor, fico procurando, achando inputs, estímulos, paixões por gatos andando na rua, escadas. Estou fascinado com a Vila Madalena, onde eu moro há 24 anos, onde descobri que ladeira é diversidade, é criativo. A cada hora, você vê a cidade de um ponto de vista. Estou com "bode" das ruas retas de Paris, onde os prédios são todos iguais - e olha que sempre achei aquilo lindo. Quero dizer...como é que eu moro numa cidade como São Paulo, onde cada prédio é de frente pro outro, como é que eu suporto uma cidade tão desorganizada visualmente? Hoje eu me pergunto como é que eu suportei e achei bonito Paris, tão homogênea! Engraçado que homogêneo lembra hegemônico...Paris é uma cidade homogênea e hegemônica. Ela manda por sua homogeneidade. Eu gostaria de ver o Brasil mandando por sua diversidade...negros, pobres, ricos, mulheres, homens, brigas, difusões, confusões, Candomblé, Catolicismo, evangélicos...eu não me vejo morando em um país como a Inglaterra, com seus formalismos. Eu já viajei por quase todo o Brasil e, quando você chega na fronteira com a Bolívia, um lugar que não tem nada, encontra um cara diferente de você, que pensa, que tem poder e que vive num lugar que você nunca viu. O Brasil é um continente e meu próximo passo é ir para o Oeste desse continente descobrir uma fronteira nova, que não seja subir do Sul ao Norte pelo litoral em busca de felicidade na praia.

(M.B.)

As imagens desta galeria foram feitas por Iatã, em seu iPhone 6 Plus, durante viagens de avião pelo Brasil e pelo Mundo. Foram mais de 7 mil milhas percorridas. Claustrofóbico, ele conta que as imagens foram obtidas graças à sua luta incansável por uma poltrona junto à janela.

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Iata Cannabrava

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